No mês passado, a distribuidora de energia elétrica Tokyo Electric Power
Company (Tepco) anunciou que daria continuidade a seus planos de construir uma
“muralha de gelo” em torno dos reatores nucleares danificados de Fukushima. A
ideia parecia um retrocesso. Em junho, a companhia encarregada pela desativação
da usina destruída por um tsunami em março de 2011 indicou que sua primeira
tentativa de instalação de uma estrutura parecida fracassara. A tubulação
usada, embora cheia de uma solução química a -33ºC, aparentemente não obteve
sucesso ao tentar congelar a terra do local.
Técnicas similares já foram utilizadas com sucesso por engenheiros na
construção de túneis subaquáticos e poços de minas. No entanto, segundo o Dr.
Dale Klein, engenheiro e especialista em políticas nucleares, não é certo que a
técnica produza os mesmos resultados num projeto dessa magnitude. Embora o
congelamento do solo em torno dos quatro reatores possa ajudar a conter a água
utilizada pela Tepco como líquido refrigerante, há pouco conhecimento técnico
quanto à resposta de suas fontes naturais no entorno da usina nuclear. “Não
está muito claro para mim que a Tpeco saiba realmente como a água fluirá ao
redor da barreira congelada quando ela escorrer das montanhas em direção ao
oceano”, disse em entrevista à VICE.
“Mas ela tem que ir a algum lugar. Trata-se de uma área e um lugar muito
complicado, e não sei se eles compreendem isso”, continua.
É preocupante ouvir esse tom de dúvida vindo de alguém como Klein, cujo
conhecimento aprofundado vai da política à pedagogia. Em 2006, foi nomeado à
presidência da Comissão Reguladora Nuclear dos EUA por George W. Bush e, após
deixar o cargo três anos depois, atuou como membro do comitê da organização em
2010. Atualmente, além de ser diretor associado do Instituto de Energia da
Universidade do Texas, Klein faz parte de um conselho internacional na Tpeco.
De três a quatro vezes por ano, viaja ao Japão para, junto com uma equipe,
trabalhar na limpeza da região.
Além da relutância na consideração de outras soluções para o problema,
sua principal crítica em relação à maior concessionária do país consiste na
falta de informações ao público, uma negligência suspeita, que já foi apontada
por inúmeras companhias desde o terremoto e o subsequente tsunami.
“Quando rumores começam a circular, a Tepco precisa se pronunciar
imediatamente – ‘Isso é o que sabemos isso é o que não sabemos’ – em vez de se
manter em silêncio. Eles dão a impressão de que estão escondendo alguma coisa,
e eles não estão fazendo isso”, critica Klein.
Mas é difícil acreditar na Tepco quando, desde o desastre, suas
comunicações são putadas por desinformações, mentiras e uma cultura ineficiente
de segurança. Embora acusações sejam pouco construtivas em tempos de crise, é
importante lembrar que a empresa já foi repreendida, não só pelo governo
japonês, mas também por cientistas internacionais, por organizações de paz,
pela imprensa internacional e por aqueles que são contra e a favor do uso de
energia nuclear devido a sua relutância em divulgar informações num momento em
que elas são essenciais. Somando-se a isso o persistente vazamento de radiação
em águas do Oceano Pacífico, não é difícil imaginar por que a Justiça japonesa
anunciou, em julho, que quer os executivos da Tepco indiciados.
A negligência da administração da usina de Fukushima pode ser rastreada
desde muito antes de seu colapso. Três meses após o acidente, o Wall
Street Journal divulgou um relatório feito a partir de uma série de
entrevistas com antigos engenheiros da empresa. Eles afirmavam que os
operadores da usina sabiam que alguns reatores eram incapazes de resistir a um
tsunami. Desde sua construção, no final da década de 1960, engenheiros se
dirigiram a seus superiores para discutir medidas a serem tomadas em relação
aos reatores em risco. Essas medidas, porém, foram descartadas por causa dos
custos da renovação do equipamento e da falta de interesse em atualizar uma
usina que, na época, estava em funcionamento. Em 2012, descobriu-se que foi
usada fita adesiva para vedar as tubulações que apresentavam vazamento.
Um ano após a divulgação do relatório do Wall Street Journal,
a Tepco anunciou que o acidente em Fukushima liberou 2,5 vezes mais radiação na
atmosfera do que se havia calculado inicialmente. A empresa citou sensores de
radiação quebrados nas proximidades da usina como o principal motivo pela falha
e, na mesma declaração, alegou que 99% do total de radiação liberada pela usina
ocorreram durante as últimas três semanas de março de 2011, o que não é
verdadeiro – um ano depois, em junho de 2012, a Tepco admitiu que quase 80 mil
galões de água contaminada vazaram para o Pacífico todos os dias desde o
acidente. O vazamento continua até hoje.
Parentes de vítimas do tsunami rezam no local onde suas casas foram
varridas pelas ondas, em Namie, perto da usina de Fukushima, no terceiro
aniversáriodo acidente. Yoshikazu Tsuno/AFP/Getty Images
Três anos após o desastre, relatos de má gestão e altos níveis de
radiação não param de surgir. Em fevereiro, a Tepco revelou que as fontes de
água subterrânea próximas à usina e a cerca de 25 metros do Pacífico continham
20 milhões becquerels de estrôncio-90, um elemento radioativo nocivo (um
becquerel equivale a um decaimento radioativo por segundo). Embora o limite
internacional para contaminação da água por estrôncio-90 seja de
aproximadamente 120 becquerels por galão, esses fatos foram escondidos da Autoridade
de Regulação Nuclear do Japão por quase quatro meses. Em resposta, a agência
nacional de vigilância nuclear repreendeu a empresa por sua falta de “uma
compreensão fundamental da medição e manipulação da radiação”.
Em julho, a empresa declarou à imprensa que 14 arrozais diferentes fora
da zona de exclusão da usina foram contaminados em agosto de 2013, após a
remoção de uma grande quantidade de detritos reatores danificada da usina. As
medidas foram tomadas em março de 2014, mas a Tepco só divulgou as descobertas
quatro meses depois. Ou seja, emissões de radiação se acumulavam em níveis
perigosos no alimento mais sagrado do Japão havia quase um ano.
Infelizmente, a lista continua: esse é apenas um resumo de todas as
falhas e deficiências da Tepco. Há muitas perguntas a serem respondidas, mas a
mais intrigante é: por quê? Por que este caso – considerado a maior poluição
nuclear da história em termos de emissão de radiação, superior a Hiroshima,
Nagasaki e Chernobyl – estão sendo abafados pela censura interna? Se a omissão
de informações não é intencional, como sugere o doutor Klein, por que essas
descobertas não resultaram num maior esforço institucional para conter a
radiação de Fukushima e reduzir as chances de irregularidades passarem
despercebidas ou não serem declaradas?
Quando fiz essas perguntas à doutora Helen Caldicott, que já foi
indicada ao Prêmio Nobel, a resposta foi rápida: “Porque o dinheiro vale mais
do que as pessoas”.
Caldicott era membro do corpo docente da Harvard Medical School quando
se tornou presidente em 1978 da Physicians for Social Responsability,
organização americana de médicos contra guerras nucleares, mudanças climáticas
e outras questões ambientais. Em 1985, a organização ganhou o Prêmio Nobel da
Paz em parceria com a International Physicians for the Prevention of Nuclear
War, um ano após a saída de Caldicott.
Setembro passado, Caldicott organizou o simpósio “Consequências Médicas
e Ecológicas de Fukushima” na New York Academy of Medicine, e um livro sobre o
tema será lançado em outubro. Seu conhecimento se baseia não somente na
pesquisa acadêmica, mas em sua experiência com a medicina preventiva na era
nuclear.
“O Japão produz peças de reatores nucleares, como dispositivos de
contenção de reatores”, relatou em entrevista à VICE. “Eles
investem muito em energia nuclear, mesmo tendo nove vezes mais acesso a fontes
de energia renovável que a Alemanha.”
Embora a doutora afirme que o que difere Fukushima de Chernobyl seja o
vazamento contínuo de material radioativo, para ela os dois casos têm em comum
o esforço institucionalizado em manter veladas as informações. “Foi somente
após três meses que o governo japonês anunciou que houve três acidentes na
usina, embora esses acidentes tenham ocorrido nos três primeiros dias”, disse.
“Eles não estão testando os alimentos regularmente. Na verdade, estão
cultivando em áreas altamente radioativas e dizem que os alimentos mais
radioativos estão sendo enlatados e vendidos a países de terceiro mundo.”
“Alguns médicos no Japão estão bastante preocupados, pois veem um
aumento no número de doenças e são orientados a não dizer aos pacientes que
essas doenças são relacionadas à radiação”, continua. “Isso tudo é por causa de
dinheiro. Ponto final.”
O dinheiro a que ela se refere não está relacionado somente à exportação
de peças de reatores nucleares ou ao fato de que a economia japonesa volta a
cair nas graças da consciência nacional. Trata-se de um histórico de
conspirações e acordos secretos que vão muito além da Tepco. No final do mês
passado, o vice-presidente de longa data da Kansai Electric Power Company
(Kepco), que tinha quase 50% de sua energia abastecida por usinas nucleares
como Fukushima antes do acidente de 2011, revelou à imprensa japonesa que o
presidente da companhia doou aproximadamente US$ 3,6 milhões a sete
primeiros-ministros japoneses e a outros políticos entre 1970 e 1990. A quantia
que recebiam era baseada em quanto conseguiam favorecer os setores de energia
nuclear e elétrica com suas posições privilegiadas.
E se dinheiro não é a razão dessas tentativas de esconder informações
sobre Fukushima, então o problema é o medo da histeria coletiva. Quando foi
revelado que a Atomic Energy Association, grupo pró-nuclear associado às Nações
Unidas, entrou em acordo com autoridades locais de Fukushima em relação à
confidencialidadede
informações que poderiam ser de interesse público (como,
especula-se, taxas de câncer e níveis de radiação), se alastrou entre os civis
o medo de um suposto encobrimento de informações cuja gravidade se tornava cada
vez mais surreal.
Vice-presidente da Tepco Norio Tsuzumi (em pé, ao centro) e funcionários
se curvam ao pedir desculpas aos desalojados em abrigo em Koriyama. Ken
Shimizu/AFP/Getty Images
Apesar de todos esses esforços, muito já foi revelado. Atualmente,
sabemos que os níveis de radiação ao redor da usina continuam a subir, mesmo
após três anos de tentativas de contenção; que médicos diagnosticaram 89 casos
de câncer de tireoide em um estudo com menos de 300 mil crianças da região – a
incidência normal da doença entre jovens é de um ou dois a cada milhão –; e que
cientistas japoneses ainda estão relutantes em divulgar suas descobertas sobre
Fukushima, por medo de serem estigmatizados pelo governo do país.
Sabemos também que marinheiros americanos que organizaram uma ação de apoio
em Fukushima imediatamente após o desastre têm desenvolvido uma variedade de
cânceres; que macacos que vivem fora da zona restrita da cidade apresentam uma
contagem de células sanguíneas menor que os de outras partes do norte do Japão
e que a minuciosa crítica da International Physicians for the Prevention of
Nuclear War sobre o relatório do Comitê Científico da ONU sobre os Efeitos da
Radiação mostra o quanto a comunidade internacional está subestimando os
efeitos da crise.
Não há como prever se a muralha de gelo da Tepco terá o bom resultado
que os engenheiros da companhia esperam. No entanto, Klein e Caldicott têm suas
próprias ideias do que deveria ter sido feito e do que ainda poderá ser
necessário fazer num futuro próximo.
“Eu gostaria que eles tentassem usar bombas hidráulicas externas um
pouco mais, para ver se conseguem retardar a entrada de água”, disse Klein.
Isso implicaria na instalação de um montante de bombas mecânicas próximas das
fontes de água e distantes da usina, para coletar e conter a água antes que ela
chegue aos reatores danificados. “Antes do acidente, estavam sendo transpostos
27 mil galões de água por dia no local.”
“O problema é que a Tepcopraticamente não deu nenhuma abertura para que
a comunidade internacional ajudasse a tentar solucionar o problema”, critica
Caldicott. “Uma empresa grande como a Bechtol [com sede na Flórida], que produz
reatores e é uma ótima companhia de engenharia, deveria ter sido convidada pelo
governo japonês para tentar propor uma maneira de lidar com esses problemas.”
Ao mesmo tempo, a doutora reconhece que o problema não é só do Japão.
“Deveria haver um comitê internacional de especialistas da França, da Rússia,
dos EUA e do Canadá trabalhando com os japoneses em busca de soluções”, propõe.
Outros acreditam que o Japão deve se voltar para o Kremlin – Chernobyl
deu à Rússia e à Ucrânia uma experiência única no tratamento de falhas
nucleares.
Embora os efeitos ecológicos de Fukushima continuem a ser debatido por
organizações científicas e pelo público, o doutor Klein quer se afastar desses
debates e pensar nos resultados: “Gostaria de ver uma operação completamente
segura. É complicado”, admite, “mas precisamos apoiar os japoneses em suas
tentativas de limpeza sempre que pudermos”.
Fonte: Johnny Magdaleno ago 21 2014
Tradução: Flavio Taam
Disponível em: http://www.vice.com/pt_br/read/ninguem-quer-que-voce-saiba-sobre-a-situacao-atual-de-fukushima